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Como Plano Collor confiscou dinheiro da classe média e afundou economia?

Já imaginou ligar a televisão e ver o governo divulgando um plano econômico que impede você de sacar o seu próprio dinheiro do banco? Foi o que aconteceu no dia 16 de março de 1990, há exatos 35 anos, quando o então presidente da República, Fernando Collor de Mello, reuniu todo seu ministério no Palácio do Planalto, em Brasília, para anunciar o pacote que ficou conhecido como Plano Collor.

Entre as medidas anunciadas para reformar a economia do país, a mais radical era, sem dúvida, o confisco do dinheiro que a população guardava nas contas bancárias. A partir daquela data, os brasileiros só poderiam retirar no máximo 50 mil cruzeiros, algo em torno de 12 mil reais em valores atuais, enquanto o restante do que estava depositado ficaria retido no Banco Central por 18 meses.

O objetivo era combater a hiperinflação que assolava o país, mas o plano foi um desastre. Além de falhar no controle dos preços, derrubou a Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa), provocou queda violenta do Produto Interno Bruto (PIB) e gerou muita indignação, dando início a uma crise política que descambaria no impeachment de Collor, em 1992, motivado por um escândalo de corrupção.

Motivo para reformar a economia não faltava. Uma das maiores preocupações dos brasileiros, hoje, é o aumento dos preços, mas a situação era bem pior. Em 2024, a inflação no Brasil foi calculada em 4,83%, com produtos como café e óleo de soja aumentando mais de 30%. Mas, em 1989, a inflação passou dos 1.700%, Somente no mês de fevereiro de 1990, o avanço nos preços chegou a 73%.

O descontrole da inflação naquela época teve origem no início da década de 1970, durante a ditadura militar, e dali em diante o problema se agravou muito. A situação era tão ruim que os supermercados alteravam os valores dos produtos nas gôndolas todos os dias. A população se acostumou a fazer compras ouvindo o barulho terrível das máquinas usadas para etiquetar preços.

Assim que recebiam os salários, as pessoas corriam pra comprar a comida do mês todo, o objetivo era vencer a rapidez da inflação. Em uma questão de dias, o mesmo salário já compraria muito menos.

Em 1989, Fernando Collor se tornou o primeiro presidente eleito pelo voto direto desde 1960 e, com um discurso essencialmente populista, prometeu dar um jeito no Brasil. Ele chamou a economista Zélia Cardoso de Mello, de 36 anos, que tinha trabalhado na Secretaria do Tesouro durante o governo de José Sarney, para liderar a elaboração de um plano que seria a marca da nova gestão.

Antes da posse do ex-governador alagoano, foram decretados três dias de feriados bancários, o que gerou uma série de suspeitas. Muita gente correu para os caixas eletrônicos, prevendo solavancos no sistema financeiro. Mas a própria Zélia Cardoso, indicada ao cargo de “superministra” da Economia, garantiu em entrevistas que a população não tinha motivos para se preocupar.

Collor vestiu a faixa de presidente no dia 15 de março de 1989 e divulgou o pacote econômico menos de 24 horas depois, em uma reunião com seu ministério às 7h. Por volta das 19h, atravessou os cerca de 500 metros do Palácio do Planalto até o Congresso Nacional para levar o plano aos parlamentares. Os ministros que não estavam em forma para acompanhar os passos do atlético presidente.

O pacote congelou preços, extinguiu estatais e substituiu o cruzado novo pelo cruzeiro como moeda nacional, mas a medida de maior impacto foi a retenção do dinheiro. De um dia para outro, os saques bancários estavam limitados a 50 mil cruzeiros, enquanto o restante ficaria retido no Banco Central e só seria liberado 18 meses depois, em doze parcelas, com correção monetária e juros de 6% ao ano.

Grande parte do povo não tinha conta bancária ou não tinha uma quantia nem próxima de 50 mil cruzeiros depositados, mas a medida atingiu em cheio a classe média. Quem vinha se organizando para adquirir uma casa ou carro, por exemplo, ficou sem ter como pagar. O documentário “Confisco”, de 2020, mostra uma mulher grávida implorando pela liberação do seu dinheiro para pagar pelo parto.

Dirigido por Felipe Tomazelli e Ricardo Martensen, o filme se baseia em entrevistas, principalmente, com Zélia Cardoso de Mello e com uma família do interior de São Paulo que perdeu tudo com o plano. A produção também evidencia o despreparo da equipe econômica de Collor até pra explicar o pacote e, principalmente, para lidar com as consequências da retenção do dinheiro das pessoas.

O objetivo era mesmo tirar o dinheiro de circulação, provocando queda do consumo e, assim, impor um freio nos preços. A curto prazo, o plano surtiu efeito: A inflação caiu de 82% em maio de 1990, para 7,5% no mês seguinte. Mas os preços voltaram a subir e, em pouco, alcançaram dois dígitos de novo. Além disso, a Ibovespa caiu 22% e o PIB do Brasil regrediu em mais de 4% naquele ano. O Plano Collor também gerou muita desconfiança na economia e levou a aumento do desemprego.

Não houve uma onda de má vontade generalizada para aceitar o plano no início, mas, como o pacote se mostrou uma tragédia, o governo ficou desgastado. Para muitos analistas, a indignação gerada no episódio contribuiu para a onda de manifestações populares contra Collor quando ele se viu no centro do escândalo político causado por denúncias feitas por Pedro Collor, o irmão mais novo dele. Em 1992, o presidente foi afastado por um processo de impeachment e acabou renunciando.

Zélia Cardoso havia pedido demissão em maio de 1991. Pouco depois, ela foi convidada por Chico Anysio para fazer uma participação no programa de TV “Escolinha do Professor Raimundo”. Os dois começaram a sair, casaram-se e tiveram dois filhos. Em 1997, a família se mudou para Nova York. mas o casal se separou no ano seguinte. Zélia ainda mora na cidade americana.

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